Dá para passar o patrimônio aos filhos ainda em vida sem entregar as chaves. A doação com reserva de usufruto é o instrumento que separa quem é dono no papel de quem continua mandando de verdade, e é uma das peças mais úteis de um bom planejamento sucessório.
O medo de muita gente ao pensar em organizar a herança em vida é o mesmo: se eu passar os bens para os meus filhos agora, perco o controle, perco a renda, fico na mão deles. É um receio legítimo, e existe exatamente um mecanismo pensado para resolvê-lo. A doação com reserva de usufruto permite transferir a propriedade dos bens hoje, antecipando a sucessão, sem abrir mão do uso e da renda enquanto se viver.
O segredo está em entender que a propriedade plena pode ser repartida em duas partes. De um lado, a nua-propriedade, que é a titularidade do bem, o nome no registro. De outro, o usufruto, que é o direito de usar o bem e colher os seus frutos: morar no imóvel, receber o aluguel, ficar com os dividendos das quotas. Na doação com reserva de usufruto, quem doa entrega a nua-propriedade aos herdeiros e guarda para si o usufruto.
O filho passa a ser o titular do bem, com o nome no registro. Mas não pode usá-lo, vendê-lo livremente nem ficar com a renda enquanto durar o usufruto.
Quem doou continua morando, alugando, recebendo a renda e, na prática, decidindo sobre o bem. O controle permanece em vida, mesmo já não sendo mais o dono formal.
A vantagem é dupla. A sucessão já fica encaminhada, porque a propriedade está nos herdeiros, e o inventário sobre aquele bem deixa de existir ou fica muito mais simples. Ao mesmo tempo, quem construiu o patrimônio não fica desamparado: segue com o uso e a renda, mantendo a autonomia financeira. Quando o usufruto se extingue, normalmente com o falecimento, a propriedade se consolida nas mãos do herdeiro sem precisar de novo inventário para aquele bem.
A reserva de usufruto pode prever que, sem a concordância de quem doou, o herdeiro não vende nem onera o bem. É essa cláusula, e não a doação em si, que garante que você doou sem perder o controle. Doação feita sem esse cuidado pode virar a porta de saída do seu próprio patrimônio.
A doação não escapa do imposto. O ITCMD, tributo estadual sobre heranças e doações, incide sobre a transmissão. A diferença é que ele costuma ser calculado sobre o valor da nua-propriedade no momento da doação, e não sobre o bem inteiro, já que o usufruto fica reservado. Como há um movimento, no país, de revisão das alíquotas do ITCMD para cima, antecipar a transmissão pode significar pagar sob uma regra hoje mais favorável do que a que talvez venha amanhã. O cálculo, porém, varia de estado para estado e precisa ser feito caso a caso.
O instrumento é poderoso, mas não é à prova de erro. Mal redigido, ele cria problemas em vez de resolvê-los.
No escritório, estruturamos a doação com reserva de usufruto dentro de um planejamento sucessório completo, com as cláusulas que protegem quem doa e organizam a relação entre os herdeiros. Doar em vida, feito do jeito certo, é antecipar a tranquilidade. Feito no improviso, é antecipar o problema. A diferença está nas cláusulas que ninguém vê até precisar delas.