A empresa deve ao Fisco, mas a cobrança bate na porta do sócio. Nem sempre isso é legítimo. Entender quando a dívida tributária da pessoa jurídica pode alcançar o patrimônio pessoal de quem comanda, e quando não pode, é o que separa a defesa eficaz do pânico.

A regra de partida é conhecida: a dívida é da empresa, e o patrimônio da empresa responde por ela. O capital do sócio fica protegido por uma separação que é a própria razão de existir da pessoa jurídica. Acontece que essa separação não é absoluta. Em situações específicas, a execução fiscal pode ser redirecionada para alcançar sócios e administradores. O ponto é que essas situações têm contorno, e fora delas o redirecionamento não se sustenta.

A dissolução irregular: o gatilho mais comum

O caminho que mais leva a dívida da empresa ao sócio é o fechamento sem baixa regular. A empresa simplesmente para de funcionar, deixa o endereço, não dá baixa nos órgãos competentes e some, deixando o débito para trás. Esse encerramento irregular é tratado como uma falha de quem administrava, e abre a porta para que a cobrança siga contra o administrador. Encerrar de qualquer jeito, achando que o problema fica para trás, é justamente o erro que produz o redirecionamento.

Informação de ouro

Fechar a empresa direito, com baixa formal e quitação ou tratamento das pendências, é uma das proteções patrimoniais mais subestimadas que existem. O sócio que dá baixa corretamente fecha, no mesmo ato, a porta de entrada do redirecionamento. O que abandona a empresa, abre.

Nem todo sócio responde, e nem por tudo

O que muita gente teme

"Se a empresa deve, eu pago"

Qualquer sócio, pelo simples fato de ser sócio, responderia automaticamente com o patrimônio pessoal por qualquer dívida tributária da empresa.

O que a regra exige

Depende de quem fez o quê

O alcance pessoal está ligado a quem exercia a administração e a uma conduta específica, como a dissolução irregular ou o ato praticado com excesso ou infração. O sócio sem poder de gestão está em posição diferente do administrador.

Por isso, a primeira pergunta da defesa nunca é "a empresa deve?", e sim "quem está sendo cobrado, em que qualidade, e por qual conduta?". Cobrar o sócio que não administrava, ou imputar a ele um ato que não praticou, é um redirecionamento que pode e deve ser combatido.

Grupo econômico e o incidente de desconsideração

Há ainda duas frentes que ampliam o risco. A primeira é a tentativa de alcançar outras empresas sob o argumento de que formam um grupo econômico, como se o patrimônio de uma respondesse pela dívida de outra. A segunda é o incidente de desconsideração da personalidade jurídica, procedimento por meio do qual se busca derrubar a separação entre empresa e sócio. Nenhuma das duas é automática: ambas exigem demonstração e, principalmente, abrem espaço de defesa antes que o patrimônio pessoal seja atingido.

O incidente é uma oportunidade de defesa

Quando o redirecionamento passa por um incidente próprio, isso não é só má notícia. É a chance de contraditar antes da constrição, apresentar prova e demonstrar que falta o requisito que justificaria alcançar o sócio. Perder esse momento, por não reagir a tempo, é o que costuma transformar uma cobrança questionável em penhora consumada.

Como se defende

1
Verificar a legitimidade da cobrança

Quem está sendo chamado, em que condição, e se a conduta que justificaria o redirecionamento de fato existe.

2
Atacar o pressuposto, não só o valor

Muitas vezes a defesa mais forte não discute quanto se deve, e sim se aquela pessoa pode mesmo ser cobrada por aquilo.

3
Usar a via certa no tempo certo

Há instrumentos próprios para afastar o redirecionamento indevido e para proteger o patrimônio pessoal, mas cada um tem o seu momento. Reagir tarde reduz as opções.

Como atuamos

Atuamos nas duas pontas. Na prevenção, orientamos o encerramento regular da empresa e a organização societária, fechando as portas que o redirecionamento costuma usar. Na defesa, analisamos a legitimidade da cobrança contra cada pessoa, contestamos o grupo econômico e a desconsideração quando não há base, e buscamos afastar a constrição sobre o patrimônio que não deveria responder.

O sócio responder com o próprio patrimônio pela dívida da empresa é exceção, não regra. Quando essa exceção é invocada sem o que a sustenta, há defesa. E quando a empresa é encerrada do jeito certo, muitas dessas cobranças nem chegam a nascer. A diferença, de novo, está em agir antes, com método.