Na empresa familiar, uma mesma pessoa costuma ocupar três lugares ao mesmo tempo: é da família, é dono do negócio e ainda trabalha na operação do dia a dia. O problema não é acumular esses papéis, e sim confundi-los. Quando a conversa do almoço de domingo vira reunião de sócios, e a nomeação de um gerente é decidida pelo grau de parentesco, os conflitos deixam de ser exceção e passam a ser rotina. A governança corporativa existe justamente para colocar cada assunto no lugar certo.

Uma forma consagrada de enxergar isso é o modelo dos três círculos: família, sociedade (a propriedade das cotas ou ações) e gestão (quem administra). Cada círculo tem interesses legítimos, mas diferentes. A família quer harmonia e perpetuação de valores. A sociedade quer retorno sobre o que investiu e regras claras de entrada e saída. A gestão quer eficiência e resultado. Governança é o conjunto de acordos que permite que esses três interesses convivam sem que um sufoque o outro.

Sem separação

Tudo vira assunto de família

Salário de filho que trabalha na empresa, distribuição de lucro e escolha de diretor se misturam com afeto, mágoas antigas e hierarquia familiar. A decisão fica refém da emoção.

Com governança

Cada tema no seu foro

Questões de propriedade vão para a assembleia de sócios, a estratégia para o conselho, a operação para a diretoria, e as questões de convivência para o conselho de família. Cada instância decide o que é da sua alçada.

As instâncias que organizam a casa

Estruturar a governança não significa criar burocracia. Significa dar nome e função a foros de decisão que, na prática, já existem de forma desorganizada. Algumas estruturas que costumamos ajudar a desenhar, de acordo com o porte e a maturidade de cada empresa:

  • Assembleia ou reunião de sócios: onde se decidem os temas de propriedade, como distribuição de resultados, entrada de novos sócios e alterações no contrato ou estatuto.
  • Conselho de administração: pensa a estratégia de longo prazo e cobra resultados da diretoria, sem se meter na operação do dia a dia.
  • Diretoria: executa, administra e responde pela gestão cotidiana.
  • Conselho de família: cuida da convivência, dos valores e das expectativas dos parentes em relação ao negócio, separando o vínculo afetivo do vínculo societário.

O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC organiza tudo isso a partir de quatro princípios: transparência, equidade, prestação de contas (accountability) e responsabilidade corporativa. Traduzindo para o cotidiano da empresa familiar: informação que circula com clareza, tratamento justo entre os sócios, gestores que prestam contas do que fazem e decisões que consideram o futuro do negócio e de quem depende dele.

Informação de ouro

Separar os papéis não enfraquece a família, protege. Quando cada assunto tem o seu foro, o desentendimento sobre um dividendo deixa de contaminar a relação entre pais, filhos e irmãos. A governança é o que permite discordar do sócio sem brigar com o parente.

É importante lembrar, ainda, que quem administra a empresa assume deveres previstos em lei. A Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/1976) impõe ao administrador o dever de diligência e o dever de lealdade, ou seja, a obrigação de cuidar do negócio como um gestor cuidadoso faria e de agir no interesse da empresa, não no seu próprio. Esses deveres valem mesmo quando o administrador é da família, e ignorá-los pode gerar responsabilidade pessoal.

No nosso trabalho, tratamos governança na empresa familiar como um processo, não como um documento que se assina e guarda na gaveta. Começamos entendendo a realidade da família e do negócio, mapeamos onde os papéis estão embaralhados e desenhamos, junto com os sócios, as instâncias e as regras que fazem sentido para aquele momento. O objetivo é sempre o mesmo: que a empresa sobreviva às gerações e que a família continue sendo família.

Base e referências (IBGC): este conteúdo tem base no arcabouço de boas práticas do IBGC. A separação dos três círculos (família, sociedade e gestão) é base da governança da empresa familiar tratada pelo IBGC.
  • Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Governança em Empresas Familiares e Família Empresária.
  • Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, 5ª edição.

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