Quando ouvem a expressão governança corporativa, muitos empresários imaginam grandes companhias de capital aberto, com ações na bolsa e conselhos formados por executivos renomados. É um engano compreensível, mas que custa caro. Governança, no fundo, é apenas o conjunto de regras e práticas que definem quem decide o quê, como as decisões são tomadas e como se presta contas do que foi feito. E isso vale tanto para a multinacional quanto para a empresa familiar que fatura com uma equipe pequena.
O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), referência no tema no país, organiza as boas práticas em torno de quatro princípios que são simples de entender e valiosos de aplicar em qualquer porte de negócio.
- Transparência: disponibilizar informações relevantes de forma clara, não apenas as que a lei obriga, mas as que constroem confiança entre sócios, gestores e parceiros.
- Equidade: tratar todos os sócios e partes interessadas com justiça, sem privilégios ocultos.
- Prestação de contas (accountability): quem administra responde pelos seus atos e presta contas de forma diligente.
- Responsabilidade corporativa: zelar pela viabilidade do negócio no longo prazo, considerando o impacto sobre pessoas e sociedade.
Na prática, o que separa uma empresa organizada de uma empresa vulnerável costuma ser exatamente a ausência dessas regras claras. Sem elas, decisões importantes ficam na cabeça de uma pessoa só, o dinheiro da empresa e o da família se misturam, e ninguém sabe ao certo quem responde pelo quê. Quando surge um conflito, e ele sempre surge, não há um manual combinado para resolver.
Tudo na confiança
Decisões concentradas em uma pessoa, contas da empresa e da família misturadas, ausência de registro do que foi combinado. O conflito vira crise, e a crise vira disputa judicial.
Regras combinadas antes
Papéis definidos, prestação de contas periódica, acordo de sócios documentado. O conflito encontra um caminho de solução já previsto e o negócio segue de pé.
Na empresa familiar, a governança ganha um cuidado extra, porque três mundos diferentes se sobrepõem: a família, a sociedade (quem é dono) e a gestão (quem administra o dia a dia). Uma prática consagrada é justamente separar esses três círculos, para que a conversa de almoço de domingo não se confunda com a decisão de investimento da empresa. Instrumentos como o conselho de família, o protocolo familiar e o acordo de sócios existem para dar a cada assunto o seu lugar próprio.
Governança também é a base do planejamento sucessório. Pensar desde cedo em como o negócio passará para a próxima geração, por meio de institutos como a holding familiar, a doação com reserva de usufruto ou o testamento, evita que o falecimento de um sócio se transforme em anos de inventário e paralisia. É a mesma lógica dos critérios ESG, muito comentados hoje: o G, de governança, é o alicerce que sustenta as práticas sociais e ambientais, porque sem estrutura de decisão nada se sustenta no tempo.
Governança não é burocracia nem custo de empresa grande. É a diferença entre um negócio que depende de uma pessoa e um negócio que sobrevive às pessoas. Começar com regras simples e escritas, ainda pequeno, é sempre mais barato do que reorganizar tudo depois de uma crise.
No escritório, tratamos governança como um projeto sob medida, ajustado ao tamanho e ao momento de cada cliente. Não se trata de importar a estrutura de uma grande companhia, mas de dar ao seu negócio as regras claras de que ele precisa hoje, já pensando no que ele será amanhã. Se você sente que decisões importantes dependem de você e só de você, esse costuma ser o primeiro sinal de que vale a pena conversar sobre governança.
- Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, 5ª edição.
- Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Governança Corporativa em Empresas de Capital Fechado.
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